quarta-feira, 21 de maio de 2008

O extinto lobo (também conhecido por tigre) da Tasmânia Thylacinus cynocephalus foi ressuscitado, ou pelo menos parte do seu DNA, num rato.

Típico dos estranhos e maravilhosos animais australianos, o lobo da Tasmânia, também conhecido por tilacino, não era nem lobo nem tigre. Parecia um cão mas era de facto um marsupial, com bolsa para criar os juvenis.

O último lobo da Tasmânia conhecido morreu no jardim zoológico de Hobart na Tasmânia em 1936, depois de a espécie já ter sido dizimada na natureza pela caça.

Ao ressuscitar parte da sua sequência genética num rato, os investigadores descobriram uma forma de estudar a evolução da espécie, na esperança de compreender o seu lugar na árvore da vida. A técnica poderá também vir a ser aplicada a outros animais extintos.

Alguns vestígios preservados do lobo da Tasmânia ainda existem, nomeadamente os de um jovem recolhido da bolsa da mãe há 100 anos e conservado em etanol no Museu Vitória de Melbourne.

Andrew Pask, da Universidade de Melbourne, e colegas da Universidade do Texas, Houston, recolheu amostras deste espécime e de peles com cerca de 100 anos mantidas no mesmo museu, e extraiu DNA.

Pask utilizou uma porção de um gene chamado Col2a1, que regula o desenvolvimento da cartilagem e do osso. Injectou-o num embrião de rato no local onde estaria a correspondente secção do Col2a1.

Os embriões de rato cresceram, incluindo a sua informação genética introduzida, e desenvolveram cartilagem e osso de forma normal. Os resultados foram publicados na última edição da revista PLoS ONE.

É a primeira vez que DNA de um animal extinto comprovadamente executou a sua função num animal vivo.

“Até agora apenas fomos capazes de examinar sequências genéticas de animais extintos", diz Pask. “Esta investigação foi concebida para ir um passo mais à frente e examinar a função genética extinta num organismo inteiro."


"Penso que é importante que uma pessoa dê o passo para um organismo para tentar compreender como genes ancestrais extintos e os elementos genéticos funcionavam", comenta Svante Pääbo, director do Instituto Max-Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig, Alemanha.

Mas antes de os fans do filme Parque Jurássico ficarem demasiado entusiasmados, esta ressurreição de um gene não significa que se seja capaz de reconstituir o lobo da Tasmânia em breve.

O percurso exacto da actividade deste gene pode ser muito diferente em dois animais, dizem os investigadores, e a função exacta do gene no lobo da Tasmânia é impossível de decifrar sem se analisar todas as etapas desse percurso.

Por isso, os autores apelam à cautela na interpretação dos resultados, mas referem que o seu método pode, em última análise, permitir o acesso à informação genética que se pensava perdida para sempre quando o último animal exalou o suspiro final.

Fonte: Simbiotica

terça-feira, 20 de maio de 2008

Aquecimento global está a alterar milhares de sistemas naturais

Uma análise exaustiva das tendências de dezenas de milhar de sistemas biológicos e físicos forneceu mais evidências em favor da visão praticamente universal de que as alterações climáticas de origem humana estão a alterar o comportamento de plantas, animais, rios e muito mais.

O estudo, realizado por uma equipa internacional onde se incluem muitos membros do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), é uma análise estatística das observações de sistemas naturais ao longo do tempo.

Os dados, que se estendem até 1970, capturam o comportamento de 829 fenómenos físicos, como o tempo de escorrência de um rio, e cerca de 28800 espécies biológicas.

Investigadores liderados por Cynthia Rosenzweig, do Instituto Goddard de Estudos espaciais da NASA em Nova Iorque, criou um mapa do planeta usando um código de cores que revela até que ponto as diferentes regiões aqueceram ou arrefeceram entre 1970 e 2004.

Seguidamente colocaram cada um dos milhares de conjuntos de dados sobre o mapa e determinaram se eram "consistentes com aquecimento" ou “não consistentes com aquecimento". As árvores, por exemplo, podem florescer mais cedo em regiões onde o clima aqueceu significativamente.

Em cerca de 90% dos casos onde a tendência geral se observava, era consistente com os efeitos previstos do aquecimento global, relatam os investigadores na edição desta semana da revista Nature.

“As alterações climáticas induzidas pelo Homem estão a ter um vasto leque de impactos sobre os sistemas físicos e biológicos, não apenas a uma escala global mas também a nível continental", diz Cynthia Rosenzweig.

O grosso das observações são da Europa, de uma única meta-análise de uma base de dados conjunta de observações de eventos anuais naturais. Várias outras centenas são de estudos realizados noutros locais do mundo, ainda que África, Austrália e América latina estejam mal representadas.

A equipa de Rosenzweig não alega, portanto, ter mostrado que o aquecimento global de origem humana esteja a causar alterações nestes continentes do sul de forma individualizada.

Entre as alterações associadas ao aquecimento observadas no estudo incluem-se as alterações no momento da floração, construção de ninhos, degelo, migração do salmão e libertação de pólen. Declínio na população de ursos polares, krill e pinguins, bem como o crescimento superior dos pinheiros siberianos e do plâncton oceânico de água fria, também estão neste grupo.

"Este artigo fornece um caso extremamente robusto a favor da associação de uma série de alterações físicas e biológicas às alterações climáticas induzidas pelo Homem, especialmente o aquecimento", diz Roger Jones, do Centre Australiano de Investigação sobre o Clima. "Infelizmente, estes dados não cobrem todo o planeta e muitas regiões, incluindo a Austrália, não são bem cobertas. Muitas das regiões onde não há cobertura são também fortemente vulneráveis aos impactos das alterações climáticas."

Cagan Sekercioglu, da Universidade de Stanford na Califórnia, estuda o alcance das aves e, entre outros aspectos, a sua resposta às alterações climáticas. Ele está convencido que as alterações climáticas estão a afectar muitos sistemas naturais e está desapontado com a falta de dados para algumas regiões.

“Em África existem 14 estudos no total, já incluindo o Médio Oriente", diz ele. “Os grandes produtores de petróleo, como a Arábia Saudita e a Venezuela, não têm muitos estudos e és especialmente embaraçoso para mim que o meu país (Turquia) não tenha nenhum."

Sekercioglu está impressionado com a profundidade do estudo mas considera que já existia um enorme manancial de evidências de que as alterações climáticas estão a afectar o mundo. “Não devia ser sequer preciso publicar estes artigos nesta altura do campeonato", diz ele. “Este artigo é um argumento a favor de que as alterações climáticas estão a causar as alterações registadas mas isto devia estar mais que assumido. Ao fim de trinta anos não devíamos ainda ter que andar a convencer as pessoas disso.

Rosenzweig olha para esses trinta anos de forma diferente. Foi há cerca de trinta anos que o Instituto Goddard para os Estudos Espaciais começou a trabalhar nos modelos de alterações climáticas. “Menos de 30 depois de o primeiro modelo ter sido desenvolvido, estamos a trabalhar no segundo tratado global (o sucessor do Protocolo de Quioto, que expira em 2012). Penso que a questão do aquecimento global é o maior desafio que o nosso planeta alguma vez enfrentou mas ao mesmo tempo está a conduzir-nos à sustentabilidade, devido à crescente acção sobre a questão."

Fonte: Simbiotica


Saber mais:

COST 725

IPCC Working Group II Report "Impacts, Adaptation and Vulnerability"

Goddard Institute for Space Studies

Alterações climáticas estão a acelerar a perda de aves

As alterações climáticas estão a "amplificar significativamente" as ameaças que as aves do mundo enfrentam, concluiu uma avaliação global. A Lista Vermelha das Aves de 2008 salienta que as secas de longa duração e os episódios de clima extremo colocam stress adicional sobre habitats chave.

A avaliação lista 1226 espécies como ameaçadas de extinção, uma em cada oito espécies de aves. A lista, revista a cada quatro anos, é compilada pela organização BirdLife International.

"É muito difícil atribuir precisamente alterações específicas de cada espécie às alterações climáticas", diz Stuart Butchart, coordenador dos indicadores da avaliação global da BirdLife. "Mas existe agora um novo conjunto de espécies que estão claramente a ser ameaçadas por eventos de clima extremo e secas."

tentilhão de FloreanaNa lista revista, oito espécies foram acrescentadas à categoria das 'criticamente ameaçadas'. Uma delas é o tentilhão de Floreana Nesomimus trifasciatus, que é endémico de dois dos ilhéus das Galápagos e cujo efectivo decaiu de 150 em meados dos anos 60 para menos de 60 actualmente.

Os conservacionistas listaram o tentilhão como criticamente ameaçado pois sofre de uma elevada taxa de mortalidade nos adultos durante os anos secos associados aos fenómenos La Niña. Os anos secos têm-se tornado mais frequentes ultimamente e têm sido considerados o principal motor do declínio a que se assiste.

"Outra ameaça para as espécies das ilhas pequenas, como o tentilhão de Floreana, é a ameaça de espécies invasoras, em particular mamíferos e plantas", diz Butchart. "Elas estão a ter um efeito devastador sobre os habitats. Por exemplo, as cabras e os burros em Floreana estão a alterar completamente a sua estrutura ecológica."

"Eliminar ou controlar as espécies invasoras é uma acção de conservação muito directa que pode ajudar estas aves a enfrentar estas outras pressões devidas às alterações climáticas."

"As acções cruciais que são necessárias para impedir que uma espécie como esta se extinga são medidas de mitigação das alterações climáticas em larga escala, como a redução das nossas emissões de carbono, limitar a subida das temperaturas globais médias a não de 2ºC e alterar os valores e estilo de vida das sociedades."

Segundo Butchart, outro exemplo de uma espécie que está a ser afectada pelas variações no clima é o akekee Loxops caeruleirostris, uma espécie havaiana. "Não só está a sofrer o impacto negativo das chuvas fortes prolongadas que lhe destrói os ninhos mas também estão extremamente ameaçados pela introdução de doenças, transportadas por mosquitos invasores."

"Os mosquitos estavam restritos às altitudes inferiores, logo as aves estavam a salvo mais acima, longe da malária das aves que eles transportam. Mas devido às alterações climáticas, a zonação de temperaturas está a alterar-se, as altitudes mais elevadas estão mais quentes e os mosquitos vão até mais acima, eliminando a zona livre de doenças onde as aves viviam."

Em resultado, explica Butchart, esta ave também foi 'promovida' ao estatuto de 'criticamente ameaçada'.

"Não há dúvida que estamos a enfrentar uma crise de conservação sem precedentes mas existem histórias de sucesso que nos dão esperança de que nem todas as espécies ameaçadas estão condenadas. Temos algumas soluções mas precisamos de recursos e vontade política."

A BirdLife International lançou recentemente o seu Programa de Prevenção da Extinção, que tem como alvo 190 espécies listadas como criticamente ameaçadas. O seu objectivo é descobrir um "campeão da espécie" para cada ave, que financie o trabalho de conservação no terreno dos "guardiões da espécie".

Uma espécie a que foi retirado o estatuto de criticamente ameaçada, passando a ameaçada foi o pombo imperial das Marquesas Ducula galeata. A principal ameaça a esta espécie são os ratos, uma espécie invasora.

Para proteger a população destas aves de reprodução lenta, os conservacionistas deslocaram 10 adultos para uma ilha vizinha e sem ratos entre 2000 e 2003. A nova comunidade de pombos está agora estabelecida na ilha e espera-se que a população atinja os 50 indivíduos em 2010.

"Esta acção reduziu significativamente o risco de extinção pois a ave está agora espalhada por um número superior de ilhas", diz Butchart. "Serve para demonstrar que não só o trabalho de conservação funciona como é vital para impedir a extinção desta e de outras espécies."

Fonte: Simbiotica

segunda-feira, 19 de maio de 2008

As super-velozes baleias-piloto foram observadas a 'correr' em perseguição da presa, que provavelmente inclui lulas gigantes.

A rápida perseguição levou a comparações com as igualmente velozes mas terrestres chitas.

Os cetáceos até utilizam a mesma estratégia altamente especializada que as chitas usam na caça, relatam os cientistas na última edição da revista Journal of Animal Ecology. Segundo eles, acaba com a falsa percepção que temos de que as baleias de águas profundas são animais lentos.

É a primeira vez que este espantoso comportamento, que ocorre centenas de metros debaixo da água e na mais completa escuridão, foi registado.

"Tanto quanto sabemos, nenhuma outra baleia foi registada a nadar assim tão rápido em profundidade", diz a bióloga marinha Natacha Aguilar Soto, da Universidade La Laguna de Tenerife. "As baleias-piloto parecem ser as melhores atletas de velocidade dos mamíferos marinhos que mergulham em profundidade."

Aguilar Soto é membro de uma equipa internacional de investigadores pertencentes a La Laguna, Woods Hole Oceanographic Institution de Massachusetts e da Universidade de Aarhus na Dinamarca.

A equipa marcou e estudou 23 baleias-piloto Globicephala macrorhynchus que vivem ao largo das ilhas Canárias, um dos três locais do mundo onde estas baleias residem permanentemente. As marcações, concebidas pelo co-autor do estudo Mark Johnson do Woods Hole, registaram a velocidade, profundidade e direcção dos mergulhos das baleias, bem como os sons que produziam e ouviam.

Durante o dia, as baleias são vistas frequentemente a preguiçar à superfície em grupos sociais, o que levou os cientistas a pensar que apenas caçavam à noite. Mas as marcações demonstraram que também caçam durante o dia e quando o fazem, mergulham fundo e mergulham rápido.

As marcações mostraram que as baleias demoram apenas 15 minutos a mergulhar de 800 a 1000 metros ou mais. Quando localizam a presa, lançam-se sobre ela a uma velocidade de 9 metros por segundo (32 Km/h). Para além disso, conseguem manter este sprint durante 200 metros, antes de capturarem a presa ou desistirem da perseguição.

A descoberta desafia de forma fundamental a nossa percepção do comportamento dos animais de águas profundas, diz Aguilar Soto. Até agora, os investigadores assumiram que as baleias que mergulham a grande profundidade se deslocavam com relativa lentidão, devido à necessidade de conservar oxigénio enquanto sustinham a respiração.

"Foi completamente inesperado que as baleias piloto atinjam esta velocidade com reservas limitadas de oxigénio. As chitas, por exemplo, duplicam a sua taxa respiratória durante a caçada", diz Aguilar Soto.

Por isso, como as chitas, as baleias piloto devem ter uma estratégia de caça baseada na velocidade e nos sprints energeticamente dispendiosos mas, de alguma forma, conseguem faze-lo a suster a respiração. Isso pode explicar o motivo porque são observadas a preguiçar na superfície, podem estar a recuperar do esforço da caçada.

Também existem provas indirectas de que as baleias podem estar a caçar lulas gigantes. Durante os mergulhos, os marcadores acústicos revelaram que as baleias mudavam da sua ecolocação lenta para uma série de cliques rápidos, como um zumbido.

Isso permite-lhes "ver com o som" a uma maior resolução, diz o co-autor Peter Madsen, da Universidade Aarhus. "A analogia pode ser como passar de fotos para vídeo, indicando que as baleias estão a tentar capturar presas depois do sprint."

Mas "a presa deve ser suficientemente grande e calórica para recompensar os mergulhos profundos e deve ser capaz de se deslocar suficientemente rápido para ultrapassar as baleias à velocidade máxima", diz Aguilar Soto.

Um animal encaixa, a lula gigante Architeuthis. "Descobrimos um pedaço de Architeuthis a flutuar próximo de baleias piloto a mergulhar e lulas gigantes mordidas ão comuns na zona onde as baleias vivem", diz ela.

Pablo Aspas também fotografou uma baleia piloto com um tentáculo na boca (imagem acima). "A cor e forma das ventosas indicam que pertence a uma Architeuthis e o tamanho do pedaço indica que o tentáculo inteiro devia ter dois mentros, ou seja, era de uma lula com 4-5 metros e 180 kg de peso", diz o perito em cefalópodes Angel Guerra, do Instituto de Investigação Marinha de Vigo.

Fonte: Simbiotica

A subida às árvores dos nossos ancestrais

Os ancestrais dos humanos, macacos e grandes símios podem ter subido às árvores devido à sua pequena dimensão.

Há muito que os cientistas se interrogam acerca do motivo porque os primeiros primatas viviam na copa das florestas, dado que trepar parece consumir muito mais energia do que caminhar.

Investigadores americanos, no entanto, foram analisar a questão estudando primatas a trepar e a caminhar sobre passadeiras rolantes e dizem que as suas conclusões revelam que não há diferença no consumo de energia entre as duas situações para pequenos primatas, o que nos dá novas pistas para o motivo porque os seus ancestrais subiram às árvores há 65 milhões de anos.

Jandy Hanna, da Universidade Duke em Durham, Carolina do Norte, diz que os dados recolhidos sugerem que os primeiros primatas foram capazes de explorar um novo ambiente sem custos acrescidos, desde que permanecessem pequenos.

"Os primeiros primatas diferenciaram-se dos outros mamíferos em parte devido à sua capacidade de explorar um novo nicho ecológico arbóreo, o dos ramos terminais das árvores", explica ela.

Os primeiros primatas, que devem ter sido mais ou menos do tamanho de ratos grandes, sofreram, em seguida, uma série de alterações evolutivas à medida que se adaptavam ao seu novo ambiente. Algumas destas alterações incluem o surgimento de unhas em vez de garras e mãos e pés com polegares oponíveis.

"O benefício, ou a recompensa, de invadir este novo ambiente (e o surgimento destas alterações anatómicas) foi a descoberta de um meio rico em insectos e frutos", diz Hanna.

Robin Crompton, do Grupo de Evolução e Morfologia dos Primatas da Universidade de Liverpool, Reino Unido, refere que já foi observado na natureza que animais pequenos, como os lémures-rato, se deslocam basicamente da mesma forma na vertical ou na horizontal.

"Pela primeira vez, os investigadores americanos demonstraram que para os os primatas até aos 4 kg de peso, mais coisa menos coisa, a eficiência energética do movimento vertical aumenta muito pouco com o tamanho, enquanto trabalhos anteriores tinham demonstrado que a eficiência de andar aumenta drasticamente", diz ele.

Os detalhes desta investigação foram publicados na última edição da revista Science.

Fonte: Science

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